Ran Gvili, cidadão luso-israelita e herói sefardita de Israel: correu ferido de volta ao combate e tornou-se o Escudo de Alumim.

Apesar de um ombro fracturado e em convalescença, o sargento-chefe Ran Gvili lançou-se ao combate em 7 de outubro de 2023. À entrada do kibboutz Alumim, dirigiu um pequeno grupo de combatentes contra dezenas de terroristas do Hamas, salvando a comunidade de um massacre.

Ran Gvili, de 24 anos, oficial da unidade de elite Yasam (unidade especial Yamam da polícia de fronteiras no Neguev), tornou-se uma figura lendária da resistência israelita durante o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. Apelidado pelos moradores e pela família de «Defensor de Alumim» ou «Escudo de Alumim», é frequentemente descrito como tendo enfrentado sozinho dezenas de terroristas. A realidade é mais matizada: comandava uma pequena equipa de polícias, mas a desproporção de forças era esmagadora e o seu papel decisivo foi determinante para impedir os atacantes de entrar no kibboutz.

O feito heroico de Ran Gvili em 7 de outubro

Naquela manhã, Ran Gvili estava de baixa médica em casa dos pais, em Meitar, no sul de Israel. Tinha sofrido um acidente de mota e estava com o ombro fracturado; uma cirurgia estava marcada. Apesar da dor e das recomendações médicas, assim que soaram os primeiros alertas vermelhos, vestiu o uniforme, pegou na arma pessoal e correu para a zona de combates.

O seu objetivo inicial: juntar-se ao local do festival Nova para socorrer os participantes. Pelo caminho, encontrou camaradas da sua unidade Yasam e juntou-se a eles. O pequeno grupo – cerca de seis a sete combatentes Yasam mais um oficial à civil – dirigiu-se aos kibboutzim atacados.

À entrada do Kibboutz Alumim, depararam-se com uma força numerosa de terroristas do Hamas: dezenas de atacantes armados com AK-47, RPG e granadas, tentando penetrar na comunidade.

Ran Gvili tomou a iniciativa. Segundo os testemunhos dos camaradas (entre eles o sargento-chefe Richard Schechtman e Shai), liderou o assalto: puxou o pino de uma granada e abriu fogo primeiro, arrastando toda a equipa. Os combates foram intensos. O grupo eliminou pelo menos 14 terroristas (cujos corpos foram encontrados no local, a poucas centenas de metros da grade do kibboutz).

Ran foi ferido na mão e na perna, mas manteve a calma. Chamou Richard pelo rádio: «Preciso de ajuda», sem pânico apesar da chuva de fogo. Posicionado fisicamente para bloquear o acesso, impediu os terroristas de ultrapassar a grade e massacrar os moradores.

Graças a esta resistência feroz, reforçada pela equipa de alerta do kibboutz no interior, nenhum residente israelita de Alumim foi morto naquele dia (alguns trabalhadores estrangeiros morreram tragicamente). Os terroristas foram repelidos.

Ran Gvili foi atingido mortalmente durante esses confrontos. O seu corpo foi depois levado para Gaza pelos terroristas.

Porque se fala frequentemente em combate «sozinho»?

A expressão «sozinho contra dezenas» é comum nos tributos e em alguns relatos populares, porque:

•  Ran agiu muitas vezes na primeira linha, tomando as decisões mais arriscadas.

•  A equipa era muito reduzida (menos de 10 homens) face a cerca de quarenta terroristas.

•  Em certos momentos, os combatentes separaram-se (Ran perseguiu um veículo de terroristas com um oficial das FDI).

•  O seu sacrifício pessoal foi visto como o fator decisivo que salvou o kibboutz.

Os moradores de Alumim consideram-no o seu salvador. Foi erguido um memorial à entrada do kibboutz em sua honra, com uma placa que proclama: «Rani, herói de Israel, esperamos-te em casa».

Um herói internacional: símbolo da diáspora sefardita e cidadão português

Ran Gvili não era apenas um herói israelita; era também cidadão português (luso-israelita), graças às suas raízes sefarditas e à lei portuguesa de 2015 que repara a injustiça histórica contra os descendentes dos judeus expulsos da Península Ibérica.

O seu bisavô, Eduardo Nada (nascido em 1904 no Egito), obteve em 1938 o estatuto de «protegido espanhol» no consulado espanhol de Alexandria, reivindicando origens sefarditas evidentes – a sua língua misturava espanhol, português, grego e turco. Casado com Esther Nada (nascida em 1912), foram pais de Eliam Nada (1947), que emigrou para Israel e casou com Meir Ziuni. Dessa união nasceu Tali Ziuni (1970), mãe de Ran, casada com Izaak Gvili (1964).

Gabriel Senderowicz, Presidente da Comunidade Judaica do Porto, dedicou-lhe o artigo “Ran Gvili, símbolo de Sefarad”, onde o apresenta como o português cujos restos mortais o Hamas devia devolver, afirmando: «Jamais viveria de subsídios ou andaria a incendiar paragens de autocarro.» Senderowicz sublinha o exemplo positivo desta reparação histórica: «Uma coisa temos por certa. Usou de um direito concedido desde 1981 a todos os descendentes de comunidades de origem portuguesa e, se viesse viver para o Porto, não viveria de subsídios, nem entupiria os serviços nacionais de saúde, e muito menos andaria entretido a incendiar caixotes do lixo, paragens de autocarro e a agredir pessoas. Era um oficial da lei. Trabalhava, sempre.» No dia da sua morte, acrescenta, «Ran saiu de casa a correr para trabalhar, com o ombro desfeito num acidente de viação ocorrido semanas antes.»

Esta cidadania portuguesa não era um mero benefício administrativo. Ran Gvili representava o exemplo positivo dessa reparação histórica: oficial de polícia de elite, trabalhava arduamente, servia o seu país e arriscava a vida para proteger os outros. Apesar do ombro fracturado, correu para o combate em 7 de outubro. Nunca teria vivido à custa da sociedade, nem abusado dos serviços públicos, muito menos cometido atos de violência gratuita – ao contrário de algumas críticas feitas a certos beneficiários dessa lei.

A sua história pessoal reflete a da diáspora sefardita: presença milenar na Ibéria, contribuições decisivas para o desenvolvimento de Portugal (como os avanços astronómicos de Abraham Zacuto que tornaram possíveis as grandes descobertas), seguida da expulsão em 1492 e de pogroms, como o de Lisboa em 1506. Ran Gvili, repatriado após 843 dias, une assim o património sefardita português à resiliência israelita moderna, tornando-se um símbolo internacional de um povo em permanente resiliência.

O regresso de Ran Gvili e o fim de um capítulo

Em 26 de janeiro de 2026, após 843 dias, as forças israelenses recuperaram os restos mortais de Ran Gvili – o último refém ainda retido em Gaza – no cemitério al-Batesh, em Shejaia (norte de Gaza). A operação envolveu a exumação de centenas de corpos e identificação odontológica rápida. Ran foi encontrado num saco mortuário do hospital Shifa, ainda com o uniforme da polícia. Com o seu retorno, todos os reféns do 7 de outubro estão finalmente em casa.

A família de Ran, os seus camaradas e os moradores de Alumim insistem na sua humildade e coragem, expressando orgulho pelo seu sacrifício e um alívio agridoce por ele repousar em Israel. Terá salvo mais de 100 pessoas naquele dia (entre Nova e Alumim) antes de cair.

Ran Gvili será sepultado como o herói que foi, encerrando uma página dolorosa para a nação.

Descansa em paz, Rani. Não abandonaste o kibboutz. Israel nunca te esquecerá.

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