Por Luis Felipe Távora
O mundo acadêmico e as instituições de memória do Holocausto estão em polvorosa diante de um embate que mistura rigor histórico, ética e o uso político de um dos nomes mais sagrados do direito internacional. Mais de uma centena de estudiosos proeminentes do Holocausto e de genocídios uniram vozes em uma carta aberta para denunciar o que chamam de “extremismo” de uma ONG baseada na Pensilvânia. O alvo é o Lemkin Institute for Genocide Prevention, uma organização que, segundo os críticos, sequestrou o nome e o legado de Raphael Lemkin para promover uma agenda de ataques sistemáticos ao Estado de Israel.
Raphael Lemkin não foi qualquer figura; foi o jurista judeu-polonês que, tendo perdido quase toda a família nos campos de extermínio nazistas, cunhou o termo “genocídio” e lutou para que ele fosse reconhecido pela ONU. Agora, o instituto que carrega seu sobrenome — fundado em 2021 sem qualquer autorização da família Lemkin é acusado de praticar a “inversão do Holocausto”. O termo, citado por Rafael Medoff, diretor do Instituto David S. Wyman, descreve a tática de usar os símbolos e o sofrimento das vítimas do nazismo para demonizar o Estado judeu.
A indignação não é apenas acadêmica, mas profundamente pessoal. Joseph Lemkin, parente do jurista, manifestou-se de forma contundente, afirmando que Raphael estaria “totalmente ultrajado” ao ver seu nome sendo usado para validar acusações de genocídio contra Israel, especialmente após o massacre de 7 de outubro. A família, que hoje conta com apoio jurídico para tentar remover o nome de Lemkin da ONG, descreve as atividades do grupo como anátemas a tudo o que o advogado acreditava.
O que chama a atenção na reportagem original do Washington Free Beacon é o cronograma de ações da ONG. Apenas dez dias após os ataques do Hamas, o instituto já carimbava as ações de Israel como genocidas, antes mesmo de qualquer incursão terrestre. Mais grave ainda foi a guinada retórica sobre os eventos de 7 de outubro: o que inicialmente foi chamado pela organização de “dimensões genocidas” do Hamas, logo foi suavizado para uma “operação militar sem precedentes”. Em um movimento que causou repulsa entre historiadores, a ONG chegou a questionar a veracidade das denúncias de crimes sexuais cometidos contra mulheres israelenses, tratando-as como narrativas instrumentais.
Para os signatários da denúncia, o que ocorre no Lemkin Institute não é ciência nem defesa de direitos humanos, mas uma distorção perigosa. Enquanto a diretora da ONG flerta com teorias conspiratórias sobre “experimentos totalitários de ficção científica” no Líbano, os verdadeiros guardiões do legado de Lemkin lutam para que a palavra “genocídio” não seja esvaziada de sentido. No fim das contas, o que está em jogo é o direito de uma família de preservar a memória de seu antepassado e a obrigação do mundo intelectual de impedir que a história seja reescrita com as tintas da ideologia.
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