Gideon Sa’ar apela a Paris para agir contra o IRGC
O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Sa’ar, apelou oficialmente à França para que apoie, no seio da União Europeia, a designação dos Guardas da Revolução Islâmica do Irão (IRGC) como organização terrorista.
Este pedido foi formulado no âmbito de um contacto direto com o seu homólogo francês, Jean-Noël Barrot, num contexto de repressão crescente contra a população iraniana.
Segundo Gideon Sa’ar, o IRGC constitui o principal instrumento do regime iraniano tanto para a projeção da violência no exterior como para a repressão armada no interior do país. Na sua perspetiva, uma decisão clara da União Europeia seria simultaneamente moralmente necessária e juridicamente fundamentada.
O papel dos Guardas da Revolução na repressão interna
Os Guardas da Revolução não são uma força militar convencional. Controlam unidades armadas especializadas, milícias auxiliares como o Basij e um vasto aparelho de segurança. Durante os movimentos de contestação, estas forças foram mobilizadas para garantir a ordem pública através de métodos assimiláveis a operações militares.
Numerosos testemunhos e relatórios referem o uso de munições reais contra manifestantes, a presença de atiradores de elite em zonas urbanas, detenções arbitrárias em larga escala e mortes ocorridas em detenção. Várias organizações de defesa dos direitos humanos consideram estas práticas como violações graves e sistemáticas.
Cronologia recente da repressão no Irão
Início das manifestações
No final de dezembro e no início de janeiro, eclodiram manifestações em numerosas cidades iranianas. Inicialmente motivadas pela crise económica e social, estas evoluíram rapidamente para uma contestação política direta ao regime.
Militarização da resposta
Nos primeiros dias de janeiro, as autoridades procederam ao destacamento maciço de unidades dos Guardas da Revolução e de milícias afiliadas. As concentrações foram dispersas pela força. Foram registados tiros diretos contra multidões, incluindo em bairros residenciais.
Blackout informativo e repressão sistémica
A partir de meados de janeiro, foram impostas severas restrições ao acesso à Internet e aos meios de comunicação social. A repressão prosseguiu longe da atenção internacional, com um aumento significativo de detenções e de mortes reportadas em centros de detenção.
Balanço humano: estimativas disponíveis
Não existem números oficiais fiáveis divulgados pelas autoridades iranianas. Os balanços resultam de cruzamentos efetuados por ONG, jornalistas independentes e redes de defesa dos direitos humanos.
As estimativas mais prudentes apontam para várias centenas de mortos confirmados. Outras fontes, com bases de dados nominativas parciais, referem vários milhares de vítimas. A maioria das pessoas mortas eram manifestantes desarmados, civis e menores.
Estimativas do número de mortos por região
Os números abaixo devem ser entendidos como ordens de grandeza, suscetíveis de evolução à medida que novas informações se tornem disponíveis.
Teerão
A capital é a região mais afetada. São referidas várias centenas de mortos durante grandes concentrações e operações de dispersão armada. Foram documentados tiros diretos em zonas urbanas densamente povoadas.
Oeste e noroeste do país
Nas regiões com forte presença curda, nomeadamente no Curdistão iraniano, Kermanshah e Azerbaijão Ocidental, são reportadas dezenas a centenas de mortos. A repressão é descrita como particularmente violenta.
Sudoeste
Nas províncias do Khuzistão e de Ilam, foram confirmadas dezenas de mortos. As forças de segurança recorreram a munições reais durante manifestações locais.
Grandes cidades regionais
Em cidades como Isfahan, Mashhad, Shiraz ou Tabriz, são assinaladas dezenas de mortos por cidade. Detenções em massa foram seguidas de mortes em detenção, segundo testemunhos concordantes.
Enquadramento europeu e papel da França
Para Gideon Sa’ar, a designação do IRGC como organização terrorista pela União Europeia permitiria o congelamento de ativos ligados à repressão, a proibição de qualquer apoio financeiro ou logístico e um reforço substancial da pressão diplomática sobre Teerão.
Para além das medidas jurídicas, esta decisão teria um forte significado político, transmitindo ao povo iraniano que a comunidade internacional não permanece indiferente à repressão em curso.
A questão continua a ser debatida no seio das instituições europeias, com alguns Estados-Membros a invocarem constrangimentos jurídicos ou diplomáticos. Ao dirigir-se diretamente a Paris, Gideon Sa’ar procura fazer da França um ator decisivo na evolução da posição europeia sobre este dossiê.