Um mapa que identifica negócios judeus e israelitas na Catalunha faz regressar os fantasmas do passado nazi

Madrid — 01/01/2026
Atualizado em 02/01/2026, 13h20

Um projeto digital denominado “Barcelonaz”, alojado na plataforma francesa GoGoCarto, está a provocar forte alarme junto da comunidade judaica e de organizações de combate ao antissemitismo. O site apresenta um mapa interativo e colaborativo que identifica atualmente 152 negócios e entidades na Catalunha — desde comércios locais a escolas, empresas multinacionais e companhias israelitas — com o objetivo declarado de “compreender como (o sionismo) opera no nosso território”.

O mapa é público, incentiva donativos e convida os utilizadores a acrescentar novos alvos, rotulando estabelecimentos como “sionistas” de acordo com critérios definidos exclusivamente pelos criadores do projeto. Não existe qualquer distinção entre empresas israelitas, negócios judaicos locais, instituições educativas ou multinacionais com atividade em Israel: todos são colocados sob a mesma etiqueta ideológica.

Antissemitismo normalizado sob o rótulo de “anti-sionismo”

O lançamento do Barcelonaz insere-se num contexto de crescimento preocupante do antissemitismo em Espanha, particularmente visível na Catalunha. Organizações judaicas nacionais e internacionais têm alertado que o chamado “anti-sionismo” é frequentemente utilizado como pretexto para práticas discriminatórias, alimentadas por decisões políticas e declarações públicas que classificam Israel como “Estado genocida” no contexto da guerra contra o movimento terrorista Hamas.

Fontes envolvidas no combate ao antissemitismo sublinham que “o Barcelonaz não é um mapa inofensivo, mas um instrumento de estigmatização”, que pode facilitar boicotes, intimidação e até violência. A história europeia demonstra que a identificação pública de judeus e da vida judaica em espaços abertos teve, no passado, consequências trágicas.

O sinalizar da chamada “economia sionista”

Na sua apresentação, o projeto afirma querer revelar “as múltiplas ramificações da economia sionista” em Barcelona e na Catalunha, abrangendo setores como armamento, tecnologia, energia, logística, turismo, imobiliário, gastronomia e educação. Entre as entidades assinaladas surgem grandes grupos internacionais — como Airbus, IBM, Microsoft, Siemens ou BBVA — ao lado de negócios kosher e do colégio judaico Hatikva de Barcelona, descrito na plataforma como uma escola que “doutrina crianças e adolescentes com valores sionistas”.

A ausência de critérios objetivos e a assimilação deliberada entre judaísmo, Israel e uma suposta agenda ideológica reforçam as acusações de antissemitismo, além de banalizarem referências históricas de enorme gravidade.

Denúncias formais e possíveis consequências legais

Membros da comunidade judaica espanhola apresentaram denúncias formais junto da GoGoCarto, solicitando a retirada imediata do site. Numa carta dirigida à plataforma, é afirmado que o projeto “tem um caráter claramente antissemita e discriminatório, ao pretender identificar e estigmatizar uma população com base numa pertença religiosa, real ou suposta”.

O documento sublinha que este conteúdo poderá violar a legislação francesa, nomeadamente o artigo 225-1 do Código Penal, que proíbe qualquer forma de discriminação fundada na pertença religiosa, real ou suposta, bem como os artigos 24 e 33 da Lei de 29 de julho de 1881 sobre a liberdade de imprensa, que reprimem a provocação pública à discriminação, ao ódio ou à violência, assim como a injúria pública de caráter discriminatório. A carta recorda ainda que a plataforma de alojamento tem a obrigação legal, uma vez notificada, de retirar conteúdos manifestamente ilícitos, sob pena de ver a sua responsabilidade jurídica acionada.

Um precedente europeu inquietante: o caso português

Importa recordar que este tipo de estigmatização não constitui um fenómeno isolado. Em Portugal, em 2024, durante uma manifestação de grande dimensão realizada no Porto em torno da crise da habitação, os judeus locais foram explicitamente associados à responsabilidade pela situação imobiliária. Cartazes apelando a “não arrendar a senhorios sionistas” ou proclamando “nem Haifa nem Boavista” foram exibidos, numa alusão direta ao bairro onde se situa a principal sinagoga da cidade. Apesar de os proprietários judeus nascidos em Israel representarem apenas uma fração residual dos agentes do mercado imobiliário portuense, estes foram alvo de slogans, inscrições e mensagens que associavam a sua identidade religiosa ou nacional à guerra no Médio Oriente e às expulsões habitacionais. Os nomes das pessoas visadas e das suas empresas chegaram mesmo a ser publicados no órgão oficial de um partido político com representação parlamentar, gerando um clima de intimidação e medo entre as famílias afetadas, incluindo crianças receosas de frequentar a escola. Apesar da apresentação de uma queixa formal, não houve qualquer reação do Ministério Público, nem abertura de inquérito por incitação ao ódio ou discriminação. Este silêncio institucional reforçou as preocupações das comunidades judaicas europeias quanto à banalização do assédio identitário, quando este se apresenta sob a aparência de crítica social, económica ou política.

Um teste para a justiça europeia

Enquanto se aguarda que o Ministério Público espanhol qualifique juridicamente estes factos e apure responsabilidades, observadores assinalam o contraste com outros contextos europeus onde situações semelhantes não foram objeto de ação penal. A resposta institucional ao caso Barcelonaz será vista como um teste decisivo ao compromisso real da Europa no combate ao antissemitismo, sobretudo quando este assume formas digitais, colaborativas e aparentemente “militantes”.

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