Sites falsos da ABC atraem vítimas para golpes de investimento da rede Sapphire

Sites falsos da ABC atraem vítimas para golpes de investimento da rede Sapphire

Por Patrick Lancier

A 20 de agosto de 2026, a ABC News, o serviço público australiano, descreveu páginas que copiam o seu próprio visual para vender golpes de investimento. O primeiro contacto é uma leitura. A página reproduz o aspeto da ABC quase sem falha, segundo Julian Fell, do Story Lab da emissora. O texto empurra um corretor, um «curso» de trading ou um serviço de imigração. O débito inicial anda muitas vezes pelos 350 dólares australianos. Depois entra o telefone. Fala-se de petróleo e de ouro. Seguem-se as desculpas: conta congelada, falta de liquidez, taxas para libertar o saldo. Mais de 4 000 australianos figuram como alvos nas folhas internas cruzadas pela ABC. Cinco vítimas falaram. Isto é uma história de fraude internacional. Não é uma história do Estado de Israel.

Como os clones noticiosos atraem as vítimas

Rodger, em junho de 2024, entregou cerca de 125 000 dólares na plataforma The FBTC, apresentada como corretora suíça. Pediu dinheiro para uma cadeira de rodas; o «corretor» pediu-lhe mais 5 000. Toby — nome fictício usado pela ABC — foi atraído por um artigo clone da ABC no início de 2026 e perdeu mais de 500 000 dólares em negócios de petróleo e ouro que a reportagem trata como fictícios. Pressionaram-no a hipotecar a casa e a empresa por uma dívida inventada. Susan, em Nova Gales do Sul, pagou 378,50 dólares à Finterex Capital, mais tarde inscrita na lista MoneySmart; contestou o débito e foi reembolsada. Anna fez dois pagamentos alinhados com a mesma folha interna, através da Ambit Capital. Outro australiano pagou 365 dólares e recebeu um PDF de 35 páginas sobre «liderança».

O rasto do dinheiro: sociedades privadas, não um governo

O rasto descrito pela ABC passa por sociedades em vários países. O pagamento de entrada de Toby foi para a Trigo XO, em Toorak, Melbourne. A sociedade anunciava cursos em três sítios; a caixa de pagamento estava avariada. O contabilista disse ter alertado a AUSTRAC, o supervisor australiano anti-branqueamento. Um porta-voz da agência não comentou. Depois do contacto da ABC, o gabinete de contabilidade, o diretor e o acionista único cortaram relações com a Trigo XO. A ABC não afirma que a Trigo XO tenha fabricado os artigos falsos nem feito as chamadas. Escreve que a sociedade «appeared to be used to launder payments» — parecia ter sido usada para disfarçar pagamentos.

O diretor da Trigo XO apontou um dono particular: Shefi Goldberg, empresário israelita de 43 anos, segundo o Jerusalem Post. Goldberg disse ao telefone: «We didn’t have any fraudulent activity.» Num comunicado à fundação sueca Qurium, negou qualquer propriedade, controlo ou envolvimento com a Trigo XO Pty Ltd. Sobre o pagamento de Susan: «Sorry but I have no clue about any of this.» Goldberg é um particular. Israel é um Estado de direito. A fraude é crime. Nomear um empresário privado não transforma Jerusalém no autor do golpe.

Empresas citadas e as respostas de Goldberg

Goldberg é co-diretor da GoBe Marketing, que lista centros de chamadas em Israel, Chipre, África do Sul, Espanha e Filipinas, e a venda telefónica de vistos para os Estados Unidos e o Canadá — atividade privada, não estatal. A MSG Marketing, filial sul-africana da GoBe, foi objeto de um acórdão em 2021 sobre o tratamento de pagamentos de golpes de investimento apresentados como imigração. Goldberg: «I was never involved in processing any of such payments.» A USC Market Place, empresa privada israelita cujo diretor é um empregado da GoBe, recebeu pagamentos de vítimas australianas em 2024. A Smart Pay / Allegiant Holdings Ltd — Chipre, não a homónima britânica — aparece como processadora em vídeos divulgados no vazamento; o correio citado é info@smart-pay.biz. Os registos societários, segundo a ABC, apontam Goldberg como único acionista. Primeiro negou possuir entidades em Chipre. Depois: a sociedade é «used for the provision of services»; está «merely registered» e «not involved in the management or day-to-day operation».

O que a OCCRP documentou — e o que não identificou

Os documentos chegaram primeiro à televisão pública sueca SVT (Joachim Dyfvermark) e foram partilhados com a OCCRP em 2025, no projeto Scam Empire: 1,9 terabytes. A ABC cita ainda a Qurium (Tord Lundstrom) e a amaBhungane (Dewald Van Rensburg). A OCCRP trata dois grupos como distintos — sem prova de que sejam o mesmo. O da Geórgia, A.K. Group: 35,3 milhões de dólares de mais de 6 179 clientes, de maio de 2022 a fevereiro de 2025. O outro, com escritórios em vários países da Europa e também operadores privados em Israel, segundo a OCCRP, recebeu 240 milhões de dólares de mais de 26 000 pessoas, em 33 países, entre janeiro de 2021 e dezembro de 2024. Os fundadores e os beneficiários últimos desse segundo grupo permanecem desconhecidos, escreve a OCCRP. Folhas de salários de agosto de 2023 apontam 480 empregados. Até abril de 2024, a operação alugou espaço num edifício comercial privado, a Torre Sapphire, em Ramat Gan — um arrendamento, não uma sede de Estado. A OCCRP e a ABC estimam que a rede dita Sapphire tenha extorquido «centenas de milhões de dólares» só em golpes de investimento.

AUSTRAC entra no texto da ABC só como destinatária de um alerta, sem comentário. A MoneySmart entra a posteriori, no caso de Susan. As denegações de Goldberg ficam no processo. Este artigo relata a investigação da ABC e da OCCRP. Não acrescenta detenções, arrestos nem veredictos australianos ou israelitas que essas fontes, a 20 de agosto de 2026, não tenham publicado. Um particular pode ser citado. O Estado de Israel investiga a fraude; não a escreve.

Fontes

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