TL;DR — A 1 de setembro de 2026, o presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, fez uma visita oficial a Israel: recebido pelo presidente Herzog e pelo primeiro-ministro Netanyahu, rezou no Muro Ocidental e visitou os túneis, enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros se reuniu com Gideon Sa’ar. Kinshasa, que se comprometeu já em 2023 a abrir uma embaixada em Jerusalém, reafirma esse rumo.
Há imagens que resumem uma política. A 1 de setembro de 2026, em Jerusalém, Félix Tshisekedi, presidente da República Democrática do Congo, pousou a mão sobre as pedras do Muro Ocidental, de kipá na cabeça, e colocou entre elas um bilhete de oração antes de percorrer os túneis do Kotel. Recebido no mesmo dia pelo presidente Isaac Herzog e depois pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, enquanto a sua ministra dos Negócios Estrangeiros, Thérèse Kayikwamba Wagner, se reunia com o chefe da diplomacia israelita Gideon Sa’ar, o líder congolês não veio como simples visitante. Veio reafirmar uma escolha.
Um compromisso raro: a embaixada em Jerusalém
A RDC faz parte do restrito círculo de países que se comprometeram a instalar a sua embaixada em Jerusalém. Tshisekedi anunciou-o já em 2023; a transferência foi desde então adiada, devendo Israel abrir em troca uma representação em Kinshasa. Esta visita recoloca-a no caminho. Num mundo em que reconhecer Jerusalém como capital de Israel continua a ser um gesto diplomático pesado, dado apenas por um punhado de Estados, o compromisso congolês destaca-se — e faria da RDC o primeiro país da África subsariana a dá-lo.
Os desafios para o Congo
Para Kinshasa, a aproximação a Israel nada tem de simbólico. A RDC enfrenta há anos uma guerra no leste, onde a rebelião do M23 desestabiliza as províncias do Kivu; um processo de paz com o vizinho Ruanda está em curso e foi abordado durante a visita. O Congo procura parceiros em segurança, informações, ciberdefesa e agricultura — domínios em que a competência israelita é reconhecida. A isto acresce a dimensão religiosa: a RDC é um país maioritariamente cristão, onde o apoio a Israel e o apego a Jerusalém têm eco profundo. Rezar no Kotel, para Tshisekedi, fala tanto ao seu eleitorado como aos seus parceiros.
Os desafios para África
O gesto congolês inscreve-se numa reconquista mais ampla. Durante muito tempo complicadas, as relações de Israel com África conhecem um reaquecimento que Jerusalém cultiva ativamente: cooperação na agricultura, água, energia solar, saúde e segurança. A RDC, gigante de 100 milhões de habitantes e peso pesado da União Africana, conta. O seu gesto pode servir de exemplo num continente onde várias capitais ainda hesitam entre solidariedades antigas e interesses novos. Para África, a equação é clara: aproximar-se de Israel é aceder a tecnologias de rutura na água, no agroalimentar e no digital — no momento em que o continente mais precisa delas.
Os desafios para Israel
Para Israel, por fim, a visita é um balão de oxigénio diplomático. Sob intensa pressão internacional desde outubro de 2023 e perante tentativas de isolamento, o Estado hebraico precisa de amigos assumidos. Um chefe de Estado africano que reza abertamente no Muro Ocidental e confirma a sua embaixada em Jerusalém é um desmentido vivo à narrativa do isolamento. A isso soma-se um interesse estratégico de primeira ordem: a RDC detém as maiores reservas mundiais de cobalto e importantes jazidas de coltan e cobre — os minerais críticos da transição energética e da indústria de defesa. Por detrás da oração há também uma carta geopolítica e económica que Jerusalém tem todo o interesse em jogar.
Uma mão na pedra, uma assinatura política
Ao pousar a mão no Muro, Félix Tshisekedi não cumpriu apenas um gesto de fé. Assinou, aos olhos do mundo, uma aliança em construção — entre um gigante africano rico em recursos e juventude, e um Israel que procura quebrar o círculo do seu isolamento. Falta transformar a imagem em atos: a embaixada prometida, os acordos de segurança, as parcerias económicas. Mas em Jerusalém, neste 1 de setembro, a direção era límpida.
FAQ
Quem é Félix Tshisekedi?
O presidente da República Democrática do Congo, em visita oficial a Israel a 1 de setembro de 2026.
O que fez em Jerusalém?
Rezou no Muro Ocidental, colocou um bilhete entre as pedras e visitou os túneis, e foi recebido pelo presidente Herzog e pelo primeiro-ministro Netanyahu.
A RDC já transferiu a embaixada para Jerusalém?
Comprometeu-se a fazê-lo em 2023 e reafirmou-o; a transferência efetiva continua adiada, devendo Israel abrir em troca uma embaixada em Kinshasa.
Porque é que esta visita é importante?
Sela uma aproximação estratégica: segurança e tecnologia para o Congo, abertura africana e minerais críticos para Israel, num momento de forte pressão diplomática sobre Jerusalém.
Por Patrick Lancier
