TL;DR — Nascida em Qalansawe, uma cidade árabe muçulmana na região do Triângulo, em Israel, Ella Waweya tornou-se, a 15 de fevereiro de 2026, a porta-voz de língua árabe do exército israelita, sucedendo a Avichay Adraee. Tenente-coronel, é a muçulmana de mais alta patente das Forças de Defesa de Israel (IDF) e a primeira mulher a dirigir a comunicação árabe do exército. Conhecida como «Captain Ella», reúne mais de meio milhão de seguidores no TikTok e 200 000 no X.
Há percursos que resumem, por si só, toda uma sociedade. O de Ella Waweya é um deles. A 15 de fevereiro de 2026, em Telavive, uma discreta cerimónia de passagem de testemunho mudou o rosto da comunicação militar israelita: o coronel Avichay Adraee, voz em língua árabe de Tsahal durante quase vinte anos, cedia o lugar a uma mulher de 36 anos, nascida numa cidade árabe do centro de Israel. Promovida a tenente-coronel, Ella Waweya torna-se a muçulmana de mais alta patente do exército israelita e a primeira mulher a dirigir a sua comunicação em língua árabe.
Quem é Ella Waweya?
Nasceu a 16 de outubro de 1989 em Qalansawe, uma cidade árabe muçulmana da região do Triângulo, em Israel. Cresceu numa época em que, para muitos dos seus vizinhos, o uniforme israelita continuava a ser o símbolo do adversário. Adolescente durante a segunda Intifada, via o conflito através do ecrã da Al Jazeera. Depois chegou o dia em que, aos dezasseis anos, lhe entregaram o bilhete de identidade israelita. Uma ideia ficou com ela: é cidadã deste país. O resto da sua vida seria uma resposta paciente a essa evidência.
Foi uma estudante aplicada. Licenciou-se com distinção em comunicação pelo Colégio Académico de Netanya e obteve depois um mestrado, também com distinção, em governo e marketing político no Centro Interdisciplinar de Herzliya (Reichman University). Trabalhou nos meios de comunicação, nomeadamente na rádio, e fundou o projeto «Shared Life», dedicado à coexistência entre árabes e judeus. Após o serviço cívico no hospital Meir, em Kfar Saba, em 2011, tomou uma decisão que iria transformar a sua vida.
Um alistamento voluntário, mantido em segredo
Em 2013, Ella Waweya candidatou-se voluntariamente a Tsahal — um serviço que a lei não impõe aos cidadãos árabes de Israel. Tornou-se a primeira soldado da sua região. Segundo o seu próprio relato, chegou a recolher as chaves das caixas de correio da família para garantir que a convocatória do exército não caísse noutras mãos que não as suas. Escondeu o uniforme durante quase um ano e meio. Em 2015, o presidente Reuven Rivlin atribuiu-lhe uma distinção de soldado de excelência.
«Captain Ella»: uma voz para o mundo árabe
Durante sete anos, sob o nome «Captain Ella», construiu uma presença única: uma oficial israelita, muçulmana, de língua árabe, que se dirige diretamente ao mundo árabe na sua própria língua. Reúne hoje mais de meio milhão de seguidores no TikTok e cerca de 200 000 no X. O seu trabalho valeu-lhe distinções do presidente, do ministro da Defesa e do chefe do Estado-Maior.
Descreve um trabalho tão de intérprete como de porta-voz: adaptar cada mensagem ao seu público. Perante uma audiência israelita ou aberta, o tom é direto e pedagógico; perante uma audiência hostil, é preciso firmeza, prova visual, presença no terreno. Gosta de comparar a sua missão à alegoria da caverna de Platão: os prisioneiros tomam as sombras projetadas na parede pela realidade. O seu papel, diz, não é pintar sombras mais bonitas, mas testemunhar aquilo que está lá fora — mesmo quando o lá fora é difícil de olhar.
Um símbolo que ultrapassa uma carreira
A sua nomeação vai além do percurso de uma mulher. Em Qalansawe, cerca de vinte jovens seguiram desde então o caminho que ela abriu para as unidades de comunicação do exército. Para eles, Tsahal já não é apenas um rumor hostil: é também o rosto de uma mulher da sua aldeia, de uniforme, que fala a sua língua. Ao suceder a Avichay Adraee, Ella Waweya não mudou de nome ao mudar de patente. A insígnia mudou. A firmeza, não.
Numa região onde demasiadas vezes se somam as identidades como se fossem contradições, o seu percurso diz o contrário: pode-se ser árabe, muçulmana, israelita e oficial, sem renunciar a nada. Encarna um orgulho raro e assumido — o de uma árabe orgulhosa de ser israelita, que não vê na sua cidadania nem traição nem renúncia, mas uma pertença plena. Talvez seja essa a mensagem mais forte que transporta, muito para lá das suas funções oficiais.
FAQ
Quem é a Captain Ella?
Ella Waweya, oficial do exército israelita nascida em 1989 em Qalansawe, conhecida como «Captain Ella». Desde 15 de fevereiro de 2026 é a porta-voz de língua árabe de Tsahal.
Qual é a sua patente?
Tenente-coronel. É a muçulmana de mais alta patente do exército israelita.
Quem substituiu?
O coronel Avichay Adraee, porta-voz de língua árabe de Tsahal durante quase vinte anos.
Porque é que o seu percurso é excecional?
Os cidadãos árabes de Israel não estão sujeitos ao serviço militar obrigatório. Alistou-se voluntariamente em 2013, tornando-se a primeira soldado da sua região.
Por Patrick Lancier
