Coimbra: tutela pede à PGR inquérito por antissemitismo no campus
Por Patrick Lancier
TL;DR — O Observador, com a Lusa (13 de agosto de 2026), escreve que o gabinete da secretária de Estado do Ensino Superior pediu ao Procurador-Geral da República, Amadeu Guerra, que ordene um inquérito às suspeitas de antissemitismo, discriminação e incitamento ao ódio e à violência na Universidade de Coimbra, denunciadas por um estudante. O documento está datado de 6 de agosto; a Lusa teve acesso na quinta-feira 13. Foram remetidas cópias ao director do DCIAP, Rui Cardoso, e ao director do DIAP da comarca de Coimbra, Jorge Leitão. A Universidade, na mesma peça, diz que os cartazes não foram localizados no campus e que reportou às autoridades uma exigência de três milhões de euros para que o estudante não avançasse com procedimentos legais — pressão que a UC diz ter rejeitado de imediato. A PGR, a 13 de agosto, ainda não tinha respondido à Lusa. Isto é um pedido de inquérito. Não é um despacho do Procurador-Geral. Não é uma condenação. Ódio anti-Israel não é crítica política.
O papel de 6 de agosto: a tutela pede, o PGR ainda não respondeu
A novidade do dossier de 13 de agosto não é um rumor de corredor. É um expediente escrito. O gabinete da secretária de Estado do Ensino Superior enviou a Amadeu Guerra uma «comunicação de factos com relevância criminal», no âmbito do dever de denúncia obrigatória. A Lusa leu o papel. O Observador publicou-o. A data do documento é 6 de agosto de 2026. A data do acesso jornalístico é quinta-feira 13 de agosto. As duas datas não se fundem. Uma é o carimbo da tutela. A outra é o dia em que a agência viu o texto.
O caminho até esse dever é estreito e está no mesmo ofício. O gabinete da secretária de Estado tomou conhecimento «através de expediente oficial» remetido pelo gabinete do primeiro-ministro em 22 de maio de 2026. Esse expediente tinha origem numa comunicação de cidadãos recebida oito dias antes. Não se inventa aqui o teor dessa comunicação de maio. Fica o calendário: cidadãos, depois o gabinete do primeiro-ministro, depois a tutela, depois o pedido ao PGR. Cópias seguiram para Rui Cardoso, no DCIAP, e para Jorge Leitão, no DIAP de Coimbra. Pedir que se ordene um inquérito não é o mesmo que anunciar que o inquérito já corre com arguidos. A Lusa contactou a Procuradoria-Geral da República e, na peça de 13 de agosto, aguardava ainda resposta. Este artigo de 21 de agosto não inventa um despacho posterior.
O que a denúncia descreve no campus — como alegação
Quanto aos factos alegadamente praticados, o documento da tutela situa-os, pelo menos, entre julho de 2024 e maio de 2026. O palco apontado é a Faculdade de Ciências e Tecnologia e outras escolas da Universidade de Coimbra: Direito, Medicina e Química. Nessas faculdades, lê-se, «terão sido afixados cartazes, autocolantes e grafítis com conteúdo antissemita e de incitamento ao ódio contra judeus, israelitas e sionistas». O ofício cita duas expressões, em inglês, como alegadas: «Zionists should carry a certificate to prove they’re human» e «Beware of Zionists». Ficam entre aspas e atribuídas à denúncia. Este texto não as dá como fotografadas pela redacção, nem como encontradas pela Universidade.
Nos mesmos locais e no mesmo período, segundo o mesmo papel, «terão sido hasteadas bandeiras do grupo Hezbollah e exibidas imagens de apoio ao Hamas», e terá sido afixada a frase «Yahya Sinwar was a hero», «em aparente apologia e glorificação de organização e de atos terroristas». A fórmula é da tutela, não de um acórdão. Hezbollah e Hamas não são clubes de debate. Yahya Sinwar não é um tópico de seminário quando a frase o declara herói. Se estes elementos se confirmarem, não estamos a falar de uma moção sobre política do Médio Oriente. Estamos a falar de ódio e de apologia. A Senhora da Luz não confunde as duas coisas.
Bar Harel: ameaças, alegada agressão, doutoramento abandonado
O denunciante nomeado no ofício é Bar Harel, estudante de doutoramento de nacionalidade norte-americana, portuguesa e israelita. Terá sido alvo de ameaças de morte, incluindo a expressão «your family desserves a second Holocaust» — a grafia é a da fonte, e mantém-se. Terá sofrido também uma alegada agressão física por ostentar uma pequena bandeira de Israel na mochila. O estudante abandonou, entretanto, o doutoramento em Engenharia Informática na Universidade de Coimbra. Três cidadanias não são um privilégio de campus. Uma bandeira israelita numa mochila não é um convite a ser agredido. Uma frase que deseja um segundo Holocausto à família de um aluno não é crítica ao governo de Jerusalém. É ódio. A denúncia descreve-o assim. O Ministério Público, se abrir inquérito, é que o há-de qualificar.
A tutela escreve, nesta fase, que não são conhecidos os autores concretos dos factos descritos, nem outros elementos de tempo, modo e lugar, «os quais deverão ser apurados em sede de inquérito». Solicita a Amadeu Guerra que ordene os procedimentos e as diligências tidos por convenientes, e que dê conhecimento do resultado à Secretaria de Estado, na medida do legalmente admissível. Autores desconhecidos não são autores condenados. Elementos em falta não se inventam aqui.
Crimes possíveis no papel — e o que o MP ainda pode requalificar
O documento elenca hipóteses: discriminação e incitamento ao ódio e à violência; apologia e glorificação pública de organização e de infracção terrorista; ameaça; ofensa à integridade física simples. Acrescenta a cláusula que importa tanto como a lista: «sem prejuízo de outra qualificação que o Ministério Público tenha por mais adequada». É um elenco para investigar. Não é um quadro de acusações já deduzidas. Não é um veredicto. Quem transformar «poderá estar a alegada prática» em «já foram condenados» sai do Observador e sai deste arquivo.
A resposta da UC: vaguidade, cartazes não localizados, três milhões
Em resposta enviada na quinta-feira 13 de agosto à Lusa, a Universidade de Coimbra diz que, a partir do momento em que recebeu os reportes deste estudante, providenciou de imediato o acompanhamento pelos serviços e entidades competentes, nomeadamente apoio psicológico. Sublinha que todas as queixas foram «devida e cuidadosamente analisadas». Não teriam sido indicados elementos concretos: identificação de eventuais intervenientes, localização, limitação temporal. «E sendo a caracterização das situações denunciadas tão vaga e genérica, não foi possível confirmar a sua veracidade nem promover ações subsequentes.» A UC afirma ter pedido insistentemente mais elementos ao estudante e que «tal nunca aconteceu».
Os cartazes e outros materiais a que o estudante aludia não foram, segundo a UC, «localizados no campus universitário». Os elementos fornecidos, ainda segundo a Universidade, não permitiram aferir os locais efectivos onde estariam alegadamente afixados. Este artigo não corrige a UC com uma descoberta que a Lusa não descreve. Cartazes não localizados pela instituição não são cartazes dados aqui como encontrados. A denúncia descreve-os. A Universidade diz que não os achou. As duas frases ficam.
A UC acrescenta dois envios às autoridades. Primeiro: também participou a situação reportada pelo estudante. Segundo — e isto não estava no relato de 20 de agosto desta casa, assente na CAM e na JNS —: «Foi igualmente reportada às autoridades a exigência, deste estudante, de três milhões de euros para que não avançasse com procedimentos legais contra a Universidade de Coimbra — forma de pressão que a UC rejeitou de imediato.» Três milhões de euros é o único montante deste arquivo. Fica atribuído à Universidade, como exigência que a UC diz ter denunciado e recusado. Não se escreve um acordo. Não se escreve um pagamento. Não se escreve que um tribunal já qualificou essa exigência. A denúncia do estudante e esta resposta da UC convivem no mesmo dossier. Nenhuma das duas é um acórdão.
Ódio anti-Israel não é crítica política
Pode discutir-se um governo. Pode discutir-se uma guerra. Não se discute, como se fosse pedagogia, uma frase que exige um certificado de humanidade aos «sionistas». Não se discute, como se fosse liberdade académica, «Beware of Zionists» pintado ou colado numa faculdade. Não se discute, como se fosse solidariedade, uma bandeira do Hezbollah ou um cartaz que faz de Yahya Sinwar um herói. Isso, se o inquérito o confirmar, não é crítica política. É ódio, e o ofício da tutela trata-o como possível crime — apologia e glorificação de organização e de actos terroristas, discriminação, incitamento. A linha não se negocia para caber num campus.
Bar Harel saiu. A tutela pediu ao PGR que investigue. A Universidade fala de queixas vagas, de cartazes não achados e de três milhões. A Procuradoria, a 13 de agosto, ainda não tinha falado à Lusa. Coimbra, nesta sexta-feira 21 de agosto de 2026, é este pedido e este contraditório. Não é uma sentença. A Senhora da Luz arquiva em português de Portugal, com as contas trancadas à fonte, sem antecipar Amadeu Guerra.
Perguntas frequentes
Isto já é um inquérito aberto pelo PGR — ou uma condenação?
Não. É um pedido do gabinete da secretária de Estado do Ensino Superior para que o Procurador-Geral da República, Amadeu Guerra, ordene um inquérito. O documento é de 6 de agosto de 2026. A Lusa leu-o a 13 de agosto. A PGR ainda não tinha respondido à agência. Não há, nesta peça, arguidos constituídos, acusação deduzida nem sentença.
O que pediu a tutela, e a quem?
Que se ordenem os procedimentos e as diligências de investigação tidos por convenientes. Destinatário: Amadeu Guerra. Conhecimento: Rui Cardoso (DCIAP) e Jorge Leitão (DIAP de Coimbra). O dever invocado é o de denúncia obrigatória, depois de expediente oficial do gabinete do primeiro-ministro em 22 de maio de 2026, com origem numa comunicação de cidadãos recebida oito dias antes.
Que factos alegados estão no documento?
Pelo menos entre julho de 2024 e maio de 2026, na FCT e nas faculdades de Direito, Medicina e Química: cartazes, autocolantes e grafítis antissemitas, incluindo «Zionists should carry a certificate to prove they’re human» e «Beware of Zionists»; bandeiras do Hezbollah; imagens de apoio ao Hamas; a frase «Yahya Sinwar was a hero». Tudo isto é alegado. A UC diz que os cartazes não foram localizados.
Quem é Bar Harel?
Estudante de doutoramento de nacionalidade norte-americana, portuguesa e israelita. Terá sofrido ameaças de morte, incluindo «your family desserves a second Holocaust» (grafia da fonte), e uma alegada agressão física por uma pequena bandeira de Israel na mochila. Abandonou o doutoramento em Engenharia Informática na UC. A tutela diz que os autores ainda não são conhecidos.
Que crimes possíveis lista o ofício?
Discriminação e incitamento ao ódio e à violência; apologia e glorificação pública de organização e de infracção terrorista; ameaça; ofensa à integridade física simples. O Ministério Público pode requalificar. São hipóteses para inquérito, não um quadro julgado.
O que responde a Universidade de Coimbra?
Apoio imediato, incluindo psicológico; queixas analisadas; ausência de elementos concretos (pessoas, lugar, tempo); situações demasiado vagas para confirmar; pedidos de mais dados ao estudante, que segundo a UC nunca chegaram; cartazes não localizados no campus. A UC também participou a situação às autoridades.
Os três milhões de euros estão provados em tribunal?
Não. A UC disse à Lusa ter reportado às autoridades a exigência, deste estudante, de três milhões de euros para não avançar com procedimentos legais — pressão que a Universidade diz ter rejeitado de imediato. O montante fica atribuído à UC. Este artigo não o transforma numa sentença nem num pagamento.
Glorificar o Hezbollah e o Hamas é debate de campus?
Não nesta leitura. O ofício da tutela trata bandeiras do Hezbollah, imagens de apoio ao Hamas e «Yahya Sinwar was a hero» como aparente apologia e glorificação de organização e de actos terroristas. Ódio anti-Israel não é crítica política. A denúncia e a resposta da UC continuam as duas no dossier, à espera do Ministério Público.
Fontes
Por Patrick Lancier
