Por Patrick Lancier
A 27 de agosto, o Middle East Eye fez saber aos seus leitores que Israel tinha «substituído», em Jerusalém Este, o nome da Porta de Damasco por «Ancient Gate». O título é uma sentença. A fotografia que o sustenta é um recorte.
A imagem mostra operários municipais, colete laranja, a fixar uma só placa castanha: השער הקדום / البوابة القديمة / Ancient Gate. Não mostra a placa que permanece aparafusada no mesmo poste, logo abaixo: שער שכם / باب العامود / Damascus Gate. Três línguas numa e na outra. O árabe numa e na outra. O nome que o artigo diz ter sido retirado continua lá, em árabe, em inglês, e no hebraico que esta porta leva desde que o hebraico nomeia o caminho de Siquém.

Não é uma querela de gosto. É uma querela de verbo. «Substituído» é falso se o painel antigo permanece. «Apagado» é falso se o árabe permanece. O verbo justo é «acrescentado». A própria legenda do Middle East Eye quase o admite: «operários instalam um novo painel»; depois o título escreve «substitui» sobre o mesmo cliché. Um painel novo não é uma substituição, a menos que o antigo tenha desaparecido. Não desapareceu.
O mesmo verbo correu a semana inteira. A 24 de agosto, The New Arab escreveu que as autoridades israelitas tinham mudado o nome da Porta de Damasco. A 26 de agosto, a WAFA, citando a governadoria palestiniana de Jerusalém, tratou a placa como um empreendimento destinado a cortar uma geração dos nomes árabes. A Anadolu repetiu a governadoria: Israel «mudava o nome dos monumentos de Jerusalém para apagar a identidade árabe da cidade». Nenhum destes textos publicou um despacho municipal. Nenhum deu conta da segunda placa. O método é constante: tomar um objeto israelita, apertar o enquadramento até só o metal novo aparecer, e depois carregar esse recorte com as palavras «judaizar», «apagar», «ocupação».
A etiqueta inglesa «Damascus Gate» é ela própria um nome de viajante. Descreve a antiga estrada do norte, por Nablus, até Damasco. Não é o nome histórico nem em hebraico nem em árabe. Em hebraico, a porta é Sha’ar Shechem, a Porta de Siquém. Em árabe, é Bab al-‘Amud, a Porta da Coluna: o fuste romano na praça interior da porta de Adriano em Aelia Capitolina, desenhado no mapa de Madaba no século VI, em uso como nome pelo menos desde o século X. Não é Ras al-‘Amud, bairro a sudeste da Cidade Velha. A porta e o bairro têm uma palavra em comum. Não são o mesmo lugar. Escrever Sha’ar Shechem e «Ancient Gate» ao lado de Bab al-‘Amud não inventa um passado judeu. Inscreve nomes que a cidade já tinha.
Se a política tivesse sido apagar o árabe da rua, o árabe já não estaria no metal. Está. A afirmação da governadoria não é posta à prova no poste. É posta à prova numa política segundo a qual todo o ato municipal israelita em Jerusalém é, por definição, um atentado à identidade. Isto não é informação. É um mandato permanente: Israel tem de estar errado, e a imagem tem de ser cortada até que esteja errado.
É o hábito, não o acidente. Classifica-se o artigo sob «Ocupação». Abre-se a página com «o genocídio de Israel em Gaza». Cita-se um investigador para quem um nome hebraico «visa despojar o lugar» da Porta de Damasco, enquanto o inglês e o árabe de Damascus Gate permanecem no painel de baixo. Chama-se Nakba do mobiliário urbano a um segundo nome histórico. O leitor que não vai até ao poste acreditará que um nome foi assassinado. Quem lá vai verá duas setas castanhas e três línguas, duas vezes.
Israel administra Jerusalém, Cidade Velha incluída, desde 1967. É o facto político que o texto trata como pecado original, e depois como licença para descrever mal um pedaço de metal. Pode-se disputar a soberania. Não se pode disputar o segundo painel para fora da existência. Um jornalismo que prefere, por sistema, o verbo denigrante ao objeto visível não é um guardião. É um partido. Esta semana, o partido recortou um poste em Jerusalém e vendeu o recorte como história.
Fontes
Middle East Eye, 27 de agosto de 2026
The New Arab, 24 de agosto de 2026
WAFA, 26 de agosto de 2026 (governadoria de Jerusalém)
Porta de Damasco — Bab al-‘Amud, Sha’ar Shechem, coluna romana, mapa de Madaba
Crédito fotográfico: Patrick Lancier, 28/08/2026.
