Chefe do Mossad Gofman reuniu-se com o ministro sírio al-Shaibani em Amã
Por Patrick Lancier
Israel não escolheu entre a mesa e a defesa. A 23 de agosto de 2026, o diretor do Mossad, Roman Gofman, esteve em Amã com o ministro sírio dos Negócios Estrangeiros, Asaad al-Shaibani. A Axios foi a primeira a escrevê-lo, com três fontes. Desde que Bashar al-Assad caiu, em dezembro de 2024, não havia um contacto público tão alto entre Jerusalém e Damasco. O gabinete de Benjamin Netanyahu recusou comentar o encontro. Nenhuma das capitais o confirmou. O que está estabelecido é o gesto: o serviço secreto israelita senta-se com o vizinho. O que também está estabelecido, cinco dias antes, é o direito de Israel a impedir um radar hostil no seu flanco.
Abu al-Duhur: primeiro o aviso, depois a pista
Abu al-Duhur é uma base desativada na província de Idlib, a norte, perto da Turquia. A 18 de agosto a aviação israelita atingiu a pista. Duas fontes disseram ao Jerusalem Post que o alvo era um radar e um sistema antiaéreo turcos, com tropas turcas. A KAN noticiou, segundo o Post, que Israel já tinha informado Washington: a inteligência apontava para o envio turco de radar, tropas e defesa aérea para uma base síria. O ministro da Defesa, Israel Katz, descreveu a sequência. Primeiro, ele e Netanyahu mandaram um aviso direto aos responsáveis sírios «na tentativa de impedir a manobra». Depois, sem resposta, autorizaram as Forças de Defesa. Katz disse que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan «was caught with his hand in the cookie jar and was forced to back down» — apanhado em flagrante e obrigado a recuar. A televisão de Estado síria, citada pela Associated Press, falou de oito impactos na pista e não anunciou mortos. Quem transformou uma base morta num problema israelita não foram as conversações de Amã. Foi a ameaça turca que Jerusalém diz ter visto a chegar.
Um porta-voz do primeiro-ministro disse que a Síria estava «à beira de romper» o estatuto de segurança combinado ao aceitar tropas turcas na base, «escolheu ignorar» os avisos, e que Erdogan reiterou apelos abertos à destruição de Israel, segundo o Jerusalem Post.
A frase de Damasco, e o historial que a desmente
Na véspera, al-Shaibani falou à Reuters de uma «oportunidade histórica» e largou a frase de Damasco: «We do not trust Israel currently» — neste momento, não confiamos em Israel. Cabe ao jornal atribuí-la. Não cabe ao jornal adotá-la. Israel passou anos a ver o Irão e o Hezbollah instalados na Síria de Assad. Tem motivo para não confiar numa autoridade em Damasco que, segundo a sua inteligência, ignorou o aviso e deixou a Turquia aproximar-se de um aeródromo. O ministro sírio disse à Axios que não havia «nenhuma intenção de estabelecer uma base turca» nem «uma presença militar permanente» ou o «destacamento de forças», e que o ataque veio depois dessa mensagem. Katz e o gabinete de Netanyahu dizem o contrário: o aviso chegou; Damasco não respondeu; a aviação cumpriu.
Amã, com os americanos a querer um telefone
A 14 de agosto, ainda antes do ataque, Gofman já tinha telefonado a al-Shaibani, segundo o The New Arab, citando fontes diplomáticas. O assunto já era a presença militar turca na Síria. Na sala de Amã, a N12 colocou os chefes das informações gerais e militares sírias ao lado de Gofman. Uma fonte disse ao Jerusalem Post que a conversa «correu bem». A AFP, com um diplomata e uma fonte do governo sírio, falou de uma «sala de operações especial» na Jordânia, sob supervisão americana, para evitar um choque na Síria — inclusive com a Turquia, escreveu o The Hindu. A Reuters lembra que Washington tenta um acordo de segurança há mais de um ano. Os Estados Unidos querem um telefone que toque. Israel atendeu. Não prometeu deixar de abater o que o ameaça.
O mesmo porta-voz do gabinete pôs o mapa em números: as forças israelitas detêm cerca de um décimo de 1% do território sírio junto à fronteira; a Turquia, disse, tem uma «presença militar substancial» em cerca de 5% da Síria. «Não procuramos uma escalada. Mas nem a Turquia nem qualquer outro país vai ameaçar o Estado de Israel.» Em janeiro, recordou a AFP, Israel e as novas autoridades sírias tinham aceite um mecanismo de partilha de informações. Amã voltou a abrir a linha. O acordo de segurança continua por assinar. Conversar em Amã não obriga Israel a calar a aviação.
Fontes
- Axios, 23 de agosto de 2026 — encontro Gofman–al-Shaibani; três fontes; Damasco nega base turca
- Jerusalem Post — conversa «correu bem»; N12; radar e defesa aérea turcos
- Jerusalem Post — Katz: aviso primeiro, depois o ataque; KAN: Israel informou os EUA
- Jerusalem Post — gabinete de Netanyahu: estatuto de segurança, Erdogan, 0,1% contra 5%
- Associated Press — oito impactos na pista, sem mortos anunciados pela televisão síria
- Reuters, 23 de agosto de 2026 — «oportunidade histórica»; frase de Damasco sobre confiança; pressão americana
- AFP / The Hindu — sala de operações sob supervisão dos EUA; mecanismo de janeiro
- The New Arab — telefonema Gofman–al-Shaibani, 14 de agosto
