O regresso do antissemitismo é um aviso para todas as democracias

TL;DR — Desde os atentados de 7 de outubro de 2023, os atos antissemitas atingiram níveis recorde na Europa e nos Estados Unidos. Retomando o aviso da historiadora Deborah Lipstadt — o antissemitismo é «o canário na mina» da democracia —, este artigo defende uma tese: o ódio aos judeus nunca é apenas um problema judaico. Onde prospera, a confiança nas instituições, a verdade partilhada e o Estado de direito recuam. Combatê-lo é defender a própria democracia.

Um número, depois outro, depois uma evidência

Pode discutir-se longamente a definição de antissemitismo. Discute-se muito menos os contadores. No Reino Unido, o Community Security Trust (CST) registou 3 528 atos antissemitas em 2024, o segundo total mais elevado da sua história, a seguir ao recorde absoluto de 4 296 em 2023, ano marcado pelo ataque do Hamas a Israel a 7 de outubro. A média mensal, que rondava os 154 casos antes dessa data, quase duplicou.

Em França, o Serviço de Proteção da Comunidade Judaica (SPCJ) contabilizou 1 570 atos antissemitas em 2024, depois de 1 676 em 2023 — contra apenas 436 em 2022. O limiar dos mil atos foi ultrapassado dois anos consecutivos, com 106 agressões físicas registadas em 2024, o pior balanço de violência da década.

Nos Estados Unidos, a Anti-Defamation League (ADL) registou 9 354 incidentes antissemitas em 2024, o número mais elevado desde que começou a contabilizá-los há quase meio século. Pela primeira vez, uma maioria — 58% — continha uma referência a Israel ou ao sionismo. Isto representa, em média, mais de vinte e cinco atos por dia, mais de um por hora.

Três países, três metodologias, uma mesma curva. Não é um acaso estatístico. É uma tendência.

O aviso de Deborah Lipstadt

Num artigo publicado pelo The Telegraph a 30 de agosto de 2026, a questão central não é saber se os judeus têm medo — disseram-no, e os números dão-lhes razão. A questão é saber o que esse medo revela sobre o resto da sociedade.

A historiadora Deborah Lipstadt, antiga enviada especial dos EUA para monitorizar e combater o antissemitismo, resumiu a ideia numa fórmula que se tornou célebre: o antissemitismo é «o canário na mina de carvão» da democracia. Nenhuma sociedade, recorda, tolerou o antissemitismo mantendo-se uma democracia saudável. O ódio aos judeus nunca fica pelos judeus. É um sintoma precoce, um indicador avançado da degradação de um corpo político.

«Quem adere ao mito conspirativo no cerne do antissemitismo — a ideia de que os judeus controlariam os media, os bancos, o governo ou a justiça — já renunciou à democracia.»

Porque é que o conspiracionismo é o verdadeiro veneno

O antissemitismo moderno não é apenas um preconceito; é uma teoria do mundo. Propõe uma explicação total: se algo corre mal — uma crise económica, uma guerra, uma pandemia —, é porque uma mão oculta puxa os cordelinhos. Esta arquitetura mental é exatamente a que corrói a democracia por dentro. Ensina que as instituições mentem, que as eleições são viciadas, que a imprensa está comprada, que a ciência está corrompida.

Um cidadão que acredita nisto já não delibera: suspeita. Já não debate: denuncia. É por isso que os regimes autoritários e os operadores de desinformação encontram no antissemitismo uma ferramenta tão cómoda. Não serve apenas para designar um bode expiatório; serve para desacreditar a própria ideia de que uma verdade partilhada e instituições legítimas sejam possíveis.

O que a banalização custa a todos

O perigo não é apenas o ato violento. É a normalização. Quando palavras de ordem que ontem teriam provocado indignação se tornam aceitáveis; quando teorias da conspiração seculares ressurgem nas redes sociais repintadas com as cores da atualidade; quando uma comunidade tem de proteger as suas escolas, sinagogas e lojas como em tempo de guerra — é todo o tecido democrático que se distende.

O mecanismo é sempre o mesmo. Uma sociedade que aceita que um grupo seja visado com impunidade aprende, ao mesmo tempo, que o ataque impune é possível. Os judeus são frequentemente os primeiros a ser visados; raramente são os últimos. É neste sentido preciso que o antissemitismo é um aviso: testa a solidez das barreiras que a democracia ergueu contra o ódio, a mentira e o arbítrio.

Defender os judeus ou defender a democracia? Ambos, de forma inseparável

É preciso evitar um equívoco. Dizer que o antissemitismo ameaça a democracia não é instrumentalizar o sofrimento judaico ao serviço de uma causa mais «nobre». É o contrário: é reconhecer que a segurança de uma minoria e a saúde de uma nação estão ligadas pelo mesmo fio. Não se protege uma sem a outra.

Isto impõe também uma exigência de rigor. Criticar a política de um governo, incluindo o israelita, faz parte do debate democrático legítimo. Responsabilizar coletivamente os judeus, atribuir-lhes uma lealdade duvidosa, reativar o velho fantasma do complô — isso é ódio. A fronteira nem sempre é fácil de traçar, mas existe, e recusá-la por comodidade intelectual é já ceder terreno.

A responsabilidade das democracias

O que fazer? Primeiro, nomear. Uma democracia que tem medo de qualificar o antissemitismo pelo que é condena-se a vê-lo crescer. Depois, proteger: garantir concretamente a segurança dos locais judaicos, aplicar a lei contra as ameaças e a violência, sem zonas cinzentas nem dois pesos e duas medidas. Por fim, educar: contra o conspiracionismo, a única arma duradoura é uma população capaz de distinguir uma informação de um boato, uma crítica de uma calúnia.

Nada disto é um privilégio concedido a uma comunidade. É um investimento na resiliência coletiva. Uma sociedade que sabe proteger os seus judeus sabe, na realidade, proteger toda a gente — porque manteve em funcionamento as instituições, as leis e o apego à verdade que protegem cada um.

O regresso do antissemitismo não é um caso de crónica comunitária. É um sinal de alarme dirigido a todas as democracias. Cabe-lhes decidir se o ouvem.

FAQ

Porquê dizer que o antissemitismo ameaça a democracia e não apenas os judeus?

Porque o antissemitismo moderno assenta numa teoria da conspiração que deslegitima as instituições, a imprensa e a ciência. Esta desconfiança sistemática é o terreno das derivas autoritárias. Historicamente, nenhuma democracia se manteve saudável tolerando o ódio aos judeus, daí a fórmula de Deborah Lipstadt sobre «o canário na mina».

Os números citados são fiáveis?

Provêm de organismos reconhecidos que documentam os atos antissemitas há décadas: o CST no Reino Unido, o SPCJ em França e a ADL nos EUA. As metodologias diferem de país para país, mas a tendência de subida desde 7 de outubro de 2023 é convergente.

Criticar Israel é antissemitismo?

Não. A crítica da política de um governo faz parte do debate democrático. A passagem para o antissemitismo ocorre quando se responsabilizam coletivamente os judeus pelos atos de um Estado, se lhes atribui uma lealdade suspeita ou se reativam os mitos conspirativos clássicos.

O que podem fazer concretamente as democracias?

Nomear claramente o antissemitismo, garantir a segurança dos locais judaicos, aplicar a lei sem dois pesos e duas medidas, e investir na educação contra a desinformação e o conspiracionismo.

Fontes

  • The Telegraph, «The return of anti-Semitism is a warning to every democracy», 30 de agosto de 2026 — telegraph.co.uk
  • Community Security Trust (CST), Antisemitic Incidents Report 2024cst.org.uk
  • SPCJ / Crif, Os números do antissemitismo em França em 2024crif.org
  • Anti-Defamation League (ADL), Audit of Antisemitic Incidents 2024adl.org

Por Patrick Lancier

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